21 de dezembro de 2009

Ensaio de não sei o que

Começo a sentir vontade de voltar.
Mas não me reconheço mais no espaço que criei pra ser eu mesma convertida em texto.
Queria um pouco menos de sombra, de chuva, de cigarros, de forma.
Um pouco menos de postura poética pra se ser o que se é.
Um pouco mais de sol.

30 de novembro de 2009

Moça com a xícara de café

O gosto do café instantâneo naquele início de tarde de sábado.
A luz que vinha da varanda era perfeita.
Ou era eu que irradiava?
Nossa história deveria ter se resumido ao filme resultante daquela sequencia: eu brincando no seu supercomputador, você preparando nosso café da manhã às três da tarde.
Beijos, poses, café instantâneo e fumaça.
Eu como passarinho entre seus braços cheios de veias.
Seus olhos.
Minha boca.
Um sábado.

17 de novembro de 2009

De repente outra vez

Foi assim.
Blues ou jazz, nenhum acorde lhe escapava.
Sozinha nas mesas dos inferninhos da cidade, caindo de sono.
Aplausos ocos de incentivo na madrugada.
Amor.
Mulherzinha feliz do músico mais lindo da banda.
Amigos, prazer?
Mulherzinha feliz.
De repente, amor sumiu.
Ficou com raiva dele.
“Você me roubou de mim”, ela dizia.
Começou a olhar para os músicos mais lindos das outras bandas.
Se entregava em prêmio porque não tinha ideia do que fazer de si mesma.

11 de novembro de 2009

Bela adormecida

Estou por fora da agenda cultural.
Da política, me intero como criança que assiste à missa de domingo na expectativa angustiante das promessas da praça em brasa.
Me vejo pintada num céu azul escuro, entre estrelas amarelas, de olhos fechados, abraçada a um livro que não leio nunca, porque estou dormindo.

Castelos (cobertos) de areia

Não noto mais sua ausência. Nem sua presença.
Você existir ou não existir não faz mais diferença.
Nem interfere no amor.
Você nunca esteve onde vai sempre estar.
Não me foi palpável nem mesmo nas poucas vezes em que foi.
É extrasensorial.
Nem sei dizer como te percebo.
Só sei que te sinto em alguma nuance entre o estômago e esse buraco cheio de dentes que chamam de “coração”.
E sei que às vezes você me sente também.
Não te noto.
Não falam mais em você.
Morro.
Nasço.

31 de outubro de 2009

A mulher barbada

Ela me apareceu em sonho com a barba por fazer.
Ele teorizava.
Ela escancarava em insinuações.
Eu suplicava que ao menos cobrisse parte do corpo - o almoço estava quase pronto, podiam bater à porta.
Ela achava meu medo engraçado.
Ele, muito satisfeito e dono de si. Ambos fingiam não ser tudo ideia dela.
Acordei atordoada, com o gozo entalado na garganta.

30 de outubro de 2009

Febre

Do fundo de meus abismos, uma risada de assustar criança zomba de minha pseudo-disposição de ser relógio.
Mandei só desacelerar, e o piloto automático, pra provar minha incompetência, parou de funcionar.
Não consigo consertar.
Só posso me encolher e chorar envergonhada o Banzo antigo.

Desgosto

Chegar em casa sem energia para abrir o livro.
Ver o amor morrer aos poucos por falta de água.
Ter as crias de suas entranhas criadas por forças estranhas.
Ver o bonde passar. E perder a vida.

Mas um dia - uma noite - aquele piano feito de armário há de se despir da manta empoeirada e sair sapateando e cantando um tango pelo apartamento.

23 de outubro de 2009

Uma história de Cigarrilhas

Deu vontade de comprar cigarrilhas.
Cigarrilhas pequeno-burguesas, com piteira e tudo, que combinam com mãos de dedos grossos e curtos, suntuosamente enfeitados com anéis de prata.
Dedos adestrados de Karamázov, que sabem exatamente onde ir e em que ritmo ir em benefício próprio, sob o pretexto de fazer o bem à humanidade. Dedos que vão fundo, sem se machucar.
Cigarrilhas têm cheiro de suor misturado, têm forma de clarafrio, têm jeito de perder o juízo e a noção de quem se é pra não recuperar nunca mais.
Cigarrilhas afogam, machucam, viciam, humilham.
Não fumo mais cigarrillas.
Na verdade, nunca fumei, embora ache as caixinhas bonitinhas.
Prefiro segurar entre meus próprios dedos despretensiosos um bom paieiro.

19 de outubro de 2009

Sobre bruxas e borboletas

(ou "A mulher desiludida 2". Ou "Terezinha de Jesus")

Aquela bruxa me roubou tudo.
Enfeitiça com seu jeito de desamparada, mas não me engana.
Do canto que me restou, vejo como ela vai mudando de cara pra agradar todo mundo.
Será que ele não vê? Ele não é assim. A gente não é assim.
Nem sei mais o que ele é. Ele está viciado. Viciado nas coisas nojentas que eles fazem.
Não consigo nem pensar em chegar perto dele de novo quando penso que eles...
E acham que eu não vejo!
Às vezes, tenho vontade de gritar na cara deles.
E seria como se todo mundo pulasse para mudar o eixo da terra.
Mas como eu conseguiria respirar se fosse atirada pra longe dele?
Então, fico quietinha, com minhas caras e bocas pra agradar todo mundo.
Não posso ficar desamparada.

Camarote VIP

Gosto de ver o mundo pela janela - de preferência, por detrás das cortinas.
Fazer elucubrações, observações brilhantes, apresentar hipóteses jamais imaginadas para explicar todas as questões da humanidade - meus caros, como sou bom nisso.
Agora, não me peçam para meter a cara, as mãos ou os pés no mundo. Caçador implacável que sou, não vou fazer a besteira de me tornar caça de mim mesmo, não é?
Um distanciamento seguro - por que não? E, ao final de um longo dia da mais fina e asséptica observação da realidade, apertar meu próprio "turn off" e descansar o sono dos mortos-vivos.

Rosa que rola

                          Uma bola rosa-choque puxou conversa com meu pé
                                       E eu, embevecida em meus devaneios

Nem dei bola pra ela...

         Desconsolada, ela correu
                                              rua
                                                  abaixo
        
Enquanto a dona do pé - e da bola
                                                                                       Da outra ponta
                                                                                              Me olhava

                                            Entre constrangida e incrédula
                                                  Linda como as meninas
                                   Que brincam com bolas rosas-choque

14 de outubro de 2009

Cambiações

O chão parece sumir debaixo dos meus pés por ruas ainda não decoradas.
Vertigem? Deleite.
É o vento que me atravessa o cérebro enquanto me misturo às coisas distraídas.
Quem me guia? Quem me diz qual é o próximo passo?
Esse "novo" eu que "surge", que traz de mim?
Para onde há de me levar meu rabo?

1 de outubro de 2009

Vendida

Ando pelo mundo lânguida e desinteressada das coisas como uma gata velha.
Tenho minha almofada, tenho minha ração.
Recebo de bom grado os afagos desatentos de quem passa.
É hipocrisia ou instinto de sobrevivência o que me impede de enxergar as redes na janela?
Mimetizo-me, mas sempre gata:
me faço de tola enquanto engulo passarinhos pelos cantos da casa.

30 de setembro de 2009

Catavento

Era uma varanda grande
Do tipo que se podia cultivar plantas, contar histórias
Estender uma rede pra ler um livro
Afinal, o que se espera de uma varanda?
O problema das varandas é que elas se abrem para o infinito
E aí, aquele velho medo do medo
De repente
Vontade de voltar pra sala
Fechar os olhos
Sentir o vento
E sair voando por cenários imaginários

29 de setembro de 2009

Caleidoscópio

                 Pare de me acariciar com suas sombras morenas, morena...
                                         Não vê que eu percebo o cheiro
                                                                                    Por debaixo
                                                               Do seu                                                       
                                                                                     Vestido?
Não vê que confunde os meus sentidos ao deixar no ar
                             A língua dos meus olhos em busca de outros lagos
                                                                                                          Pra deslizar?
Será mesmo açúcar caramelado que
                    Escorre
                            Em suas veias?


Ou será você mais uma dessas bruxinhas
De alma de porcelana
E truques

                                                                      Vãos?



                                    

11 de setembro de 2009

O Farol

Era dada a pressentimentos.
Os fantasmas da noite a reencontravam no café da manhã.
E, vez, por outra, ao longo do dia, dava de cara com eles, encostados num canto qualquer, de braços cruzados, a espiar pelo canto do olho.
Queria que eles não estivessem ali. Sabia que só dependia dela fazer com que eles desaparecessem. Mas até isso fazia com que fosse irresistível olhar pra eles.


Gozo

Chego em casa correndo e mergulho nas páginas de um livro como quem abre as pernas para um amante.


Dissimulada

Às vezes, me sinto meio hipócrita. Como pode que todos os meus sentidos se concentrem num fenômeno que, no momento seguinte, já não me merece uma olhadela?
Me esforço, então, para voltar ao primeiro ponto: é preciso coerência no sentir.
Descubro, afinal, a hipocrisia.


10 de setembro de 2009

Medo da luz acesa

Se entregava em sacrifício para provar ao mundo a absoluta falta de sentido do fazer parte
Sentia um misto de tédio e prazer quando, por repetidas vezes, lhe faziam a mesma pergunta desinteressada:
"Por onde você anda?"
Permanecia no oculto
Quando a criança desconfiada vinha à tona, se escondia n'algum canto, olhos por detrás das páginas de um livro
Sozinha, sentia falta de vida
Misturada, sentia saudade da solidão
Era nalgum estágio intermediário que se aceitava, mas não sem luta
Reclamavam que falava pouco
Mal sabiam dos vulcões que aguentava explodirem no peito a cada mudança de cenário