Tinha 16 anos quando a mãe adoeceu e teve que deixar a escola para trabalhar. Não que ela gostasse muito de estudar, mas, pelo menos, ali, era igual a todo mundo. Ou será que era porque ali era "alguém"?
Foi trabalhar como auxiliar de limpeza num órgão público. Suas colegas eram mulheres mais velhas, gordas, cheias de filhos e problemas diferentes dos seus, ainda que ela tenha sido obrigada a amadurecer precocemente.
Perambulavam pelos corredores e pelas repartições com seu uniforme azul, seus baldes, panos molhados e vassouras. Eram como fantasmas, já que ninguém as via. O uniforme era a insígnia de sua casta inferior, e não havia nada que ela odiasse mais que ele.
As moças da limpeza driblavam a violência da despersonalização com assessórios exóticos, enfeites de cabelo, desenhos no esmalte. E ela percebeu que haviam criado uma trincheira para afirmar sua existência como gente de carne, osso e sangue nas veias: os banheiros, convertidos nos seus escritórios, extensão de suas salas-de-visita, de suas cozinhas.
Era ali que se trocavam confidências e lamentações, que se davam conselhos, se negociavam empréstimos informais e até que se faziam feitiços pra espantar encosto, arrumar marido, afastar amante de marido, tirar filho da cadeia, curar doença e assim vai.
Não foi fácil ter acesso ao clube dos banheiros, especialmente porque em seu semblante o inconformismo se travestia de um ar de superioridade que fazia as colegas rirem. No início, andava sozinha, entre curiosa, assustada e envergonhada, com seu uniforme azul em meio aos taiers e ternos de grife. De tanto não se ver nos olhos dos outros, quase esqueceu que era.
Aos poucos, a tristeza afrouxou o orgulho e ela foi se chegando, se deixando cuidar, aconselhar, invejar pelas colegas. Foi engordando, esquecendo da escola, das amigas, dos garotos. Cansada de cuidar da mãe sozinha, deixou-se casar também.
Um dia, mais velha, cheia de filhos, olhou pra filha adolescente e lembrou: o que queria era ser alguém que fosse todo mundo.
23 de setembro de 2010
20 de setembro de 2010
Comunhão profana
Enquanto você busca a "paz", eu te culpo pela minha desordem e aguardo submissa.
Ao comungar do seu caos, me justifico, me eximo, sublimo.
Foto: Nan and Brian in Bed, da série "The Ballad of Sexual Dependency", Nan Goldin.
5 de agosto de 2010
Tentáculos
Vaso remendado traz na pele a marca da queda.
O acidente é o momento máximo de sua existência, é o que o constitui.
Ainda que o tenham convencido de que ele é frágil e que tem que se preservar; ainda que ele tenha criado medo do espinho vermelho-fresco; ainda que tenham se acumulado a poeira e as teias de aranha; ainda que a ideia do cheiro não seja mais que uma ideia.
Ainda assim.
Seu maior desejo continuará sendo a beirada da mesinha estreita da sala, ele, cheio d´água até a boca.
Bobo do vaso.
Sou vaso rachado, e, como é da minha natureza, não tenho medo de quebrar de novo.
Só que criei manias. E cismei que, agora, água rala não me basta.
É que hoje escorro fácil por vias tortas, dispersa nos mil atalhos dos meus pés-de-galinha.
Tenho muito a oferecer, mas muito a perder, e cansei de me desperdiçar. Minha porcelana não se acha na assistência técnica.
Decidi o seguinte: quero que me encham de terra bem molhada e plantem as rosas nas minhas entranhas.
Devo avisar que não tenho alças, mas tentáculos.
O acidente é o momento máximo de sua existência, é o que o constitui.
Ainda que o tenham convencido de que ele é frágil e que tem que se preservar; ainda que ele tenha criado medo do espinho vermelho-fresco; ainda que tenham se acumulado a poeira e as teias de aranha; ainda que a ideia do cheiro não seja mais que uma ideia.
Ainda assim.
Seu maior desejo continuará sendo a beirada da mesinha estreita da sala, ele, cheio d´água até a boca.
Bobo do vaso.
Sou vaso rachado, e, como é da minha natureza, não tenho medo de quebrar de novo.
Só que criei manias. E cismei que, agora, água rala não me basta.
É que hoje escorro fácil por vias tortas, dispersa nos mil atalhos dos meus pés-de-galinha.
Tenho muito a oferecer, mas muito a perder, e cansei de me desperdiçar. Minha porcelana não se acha na assistência técnica.
Decidi o seguinte: quero que me encham de terra bem molhada e plantem as rosas nas minhas entranhas.
Devo avisar que não tenho alças, mas tentáculos.
28 de julho de 2010
Atrasada
O gozo recalcado explodiu de repente em pequenas convulsões.
Perdi o timing, e o coração doeu de tanto querer te amar direito.
Me entreguei na hora errada. Entenda, não é que não tenha me entregado.
Sou como as androides daquele filme do Wong Kar Wai, o "2046". Parece que sou fria, mas não é isso: sou atrasada. Sou tão antiga que tenho um defeito fatal em meu mecanismo de resposta ao ambiente externo. Minhas reações são retardadas.
É que, bem, você sabe. Tanta coisa.
Mas, reparou nas cores?
26 de julho de 2010
Love me tender, love me sweet
Voltei e encontrei os móveis da casa de pernas pro ar.
Nem a máquina de triturar cérebros ajuda. Parece que o monitor pifou: repete cenas de um filme sangrento que vi numa tarde-noite em que o estômago falou mais que a boca.
Sim, eu queria comida. Minha declaração de amor não teve nada de delicadeza. Foi um arroubo. Um blefe, afinal.
E que importa? Quem disse que é isso que falta?
Depois que souber o que fazer de mim e da casa, vou ficar bem.
Se for o caso, sempre amei melhor à distância.
Nem a máquina de triturar cérebros ajuda. Parece que o monitor pifou: repete cenas de um filme sangrento que vi numa tarde-noite em que o estômago falou mais que a boca.
Sim, eu queria comida. Minha declaração de amor não teve nada de delicadeza. Foi um arroubo. Um blefe, afinal.
E que importa? Quem disse que é isso que falta?
Depois que souber o que fazer de mim e da casa, vou ficar bem.
Se for o caso, sempre amei melhor à distância.
10 de julho de 2010
Mea culpa
Querida, tenho sido mentiroso. A primeira vez foi quando disse "sim".
22 de junho de 2010
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