28 de fevereiro de 2011

Manhã encoberta no Sul de Minas Gerais

Ficar aqui pra sempre. Até que o sempre se torne insuportável.
As pessoas me dizem que tenho que voltar diferente dessa vez. Alguma coisa precisa realmente mudar. Tenho pesquisado cursos. Mas o que gosto mesmo, pra falar a verdade, é de não fazer nada.
Folhear e recortar revistas até de madrugada, ouvir todas as músicas do iPod.
O foda de ficar aqui é não poder fumar à noite, quando dá mais vontade. Ordens do chefe da casa. E abdicar daquele uisquinho que sempre dá algo de classe à melancolia.
“Viver ou morrer é o de menos. A vida inteira pode ser qualquer momento. Ser feliz ou não, questão de talento”, diz o Ney aqui ao pé do meu ouvido.
Ser artista é sonho. Tudo seria muito mais simples se fosse possível abdicar da pulsão pelo transcendente. Ou da vaidade que não se contenta com os cumprimentos de praxe. Da vaidade pra qual o que não é virtuose não é nada além de cosquinha no ego.
Não caibo em mim de tanta vaidade. Realmente, ser feliz ou não é questão de talento.
Houve um tempo em que eu tinha planos, muitos planos. Posso ate dizer que era bem ambiciosa. Hoje tenho vontades em forma de fumaça, mimos de criança que não sabe com o que brincar.
Tudo se tornou relativo, questionável, quando o que eu espero das coisas é o absoluto. O prazer absoluto. Não acredito na tal da “força de vontade”. Acho que, ou se é, ou não se é. E assim, pra não forçar a barra e ser falsa comigo mesma, não sou nada. Mas eu quero ser tudo. Quero ser gênio.
A vida tem sido uma luta pra ocupar a mente com qualquer coisa que não seja gastar dinheiro – luta vã, já que só paro mesmo quando o dinheiro acaba. Prazer? Imagino que algo semelhante a uma picada.
Às vezes me pergunto: ler pra quê? Quer dizer, qual é o meu objetivo, e em que direção eu vou? E aí vem a ideia do curso de letras, e do mestrado em teoria literária, e aí já começo a estragar com regras aquilo que eu mais valorizo na vida. O mesmo vale para a pretensão de escrever um livro. Ser escritora significaria me juntar aos grandes, de alguma forma, pertencer ao grupo dos ...
tá aí: o que é um escritor, além de um contador de histórias? Dostoiésvski era um fodido na vida, muito mais fodido que eu, que nem sou exatamente fodida. Escrevia pra pagar suas dívidas de jogo. E hoje tem lá sua prateleira em toda livraria e em qualquer sebo de respeito do mundo. Isso só pra dar um exemplo.
Todo mundo se vira como pode. Tantos e tantos escritores foram funcionários públicos. Mas eu confesso que seus textos me soam meio tediosos. De um tédio quase burocrático. Estou falando especificamente do Pessoa e do Drummond, posso estar cometendo uma injustiça com outros dos quais não me lembro agora.
Um escritor realmente bom, do tipo gênio, nunca encontra reconhecimento em vida. Se bem que os tempos são outros, tem a internet, e tal. Você não pode agir como um ser do século XIX em tempos 2.0.
Não sou como o Léo Tavares, meu ídolo entre os seres vivos da minha idade. Além de ser gênio, o que já ajuda muito, ele sabe aproveitar muito bem o recurso do blog, o mobileazul.blogspot, pra divulgar seu trabalho. Atualiza quase todos os dias, e com material excelente. Além disso, é excêntrico, carismático, cheio de amigos. Enfim, circula. Uma coisa que eu definitivamente não faço.
Não é mole não. Hoje, literatura também é espetáculo. E tá sobrando gente cheia de coisa para dizer, com todos os recursos disponíveis pra isso. O tempo do escritor introvertido já passou.
Esse texto era pra refletir sobre o que eu vou fazer da vida daqui pra frente.

7 comentários:

Léo Tavares disse...

Raíssa, primeiro quero dizer que o seu texto me toca muito. E acho que o motivo principal dessa conexão que se fez entre o que vc escreveu aqui e o meu sentimento como leitor partiu do tom confessional dele. Claro que não basta ser confessional: para que o afeto exista é preciso que o tema em questão seja de interesse pra mim e que as coisas estejam organizadas da melhor forma. E aqui eu acho q esses dois fatores estão presentes. Gosto de ler, principalmente, quando algo escrito aponta para coisas que não estão no texto, quando as palavras suscitam algo indizível, despertam sentimentos. Vc tem feito tudo isso e, na minha opinião de leitor, saber inserir o inefável entre as palavras é a qualidade que mais me agrada, quando reconheço qualidades em um texto. Posso afirmar que o seu está repleto delas. Sinto que aqui sim, o indizível ressalta como um sentimento latente de vazio. Vc descreve questões pessoais que apontam para uma angústia extrema (e que, diga-se de passagem, eu conheço muito bem) e faz isso sem recorrer à descrição dessa angústia como palavra catalogada em dicionário. Estamos acostumados à essas recorrências; pessoas que, ao expressarem certos sentimentos e situações, não hesitam em permanecer no lugar-comum e, assim, apresentam expressões incapazes de provocar esse afeto grandioso, quase dolorido, que a literatura e a arte são capazes de provocar. Acho bonita a sua forma de narrar esse seu momento de vida. Poderia ter tom de diário, ou poderia soar pretensiosa e pedante, se seguisse aquele caminho “vou sentar e escrever um grande texto”. Acho que a naturalidade que vc se permitiu aqui é o que me proporciona, enquanto leitor, essa proximidade com o que estou lendo. O essencial vc conseguiu imprimir: singeleza. Deu a um sentimento que acomete um sem-número de pessoas, singularidade e profundidade. E, como eu disse antes, é dolorido. Porque é bonito de ler. Porque existe uma escolha consciente de um desenvolvimento; porque me remete à mim mesmo, quanto a esses anseios todos que a gente tem diante da gente, sobre o que fazer da vida, sobre quem ser neste mundo. Eu acho que vc está no caminho certo, Raissa. Basta ter foco e não desacreditar. Vc se expressa de uma forma bonita demais para ter receios de ir atrás do que você quer e acho sinceramente, que a cada palavra nova, fica melhor.
Concordo muito quando você diz que o tempo do escritor introvertido já passou. Mas não concordo com aquela qualidade de “gênio” que vc coloca, rs. Tenho muito caminho pela frente. E sequer acho que meu blog seja um veículo muito bom de divulgação. Eu me esforço pra divulgar bastante, só que hj em dia pouquíssimas pessoas lêem. Continuo publicando lá, firme e forte, porque não tem outro jeito. Queremos ser lidos e se cinco pessoas lerem, está ótimo. É um começo, não? Vejo muitas das minhas preocupações nas suas, e espero que esse ano você dê um salto, porque tem todos instrumentos nas suas mãos, menina.
Ah, tmb queria confessar uma coisa: o que eu mais gosto MESMO, em toda a vida, é não fazer nada. Eu tmb queria folhear revistas, fumar, beber (o “uisquinho que sempre dá algo de classe à melancolia” –isto é um achado!) e enfim, ficar lendo e pensando e vendo o tempo passar, sem ter muita preocupação de quem eu tenho que ser. Mundo injusto, né.
Obrigado imensamente por pensar coisas tão lindas (ainda que improváveis) a meu respeito e... Vamos escrever!

Raissa disse...

Love you.

Munique Alvim Duarte disse...

Raíssa, adoro os textos que você escreve, quem sou eu para te dizer alguma coisa dessa vida que roda igual no tempo mas de maneira tão diferente para tanta gente. Bem, a vida começou a dar certo para mim quando dei um foda-se para as pretensões e parei de seguir a linha reta, porque como está lá no Pequeno Príncipe (rs) quem só caminha em linha reta não chega muito longe. Não sei mais como está a sua vida, perdemos o contato, mas uma certeza eu tenho: talento e inteligência você tem de sobra. Seja feliz onde quiser, porque cidade pequena ou grande, ah, isso pouco importa! Abraço de quem te admira.
Munique Duarte

nanda barreto disse...

e eu aqui, a quilômetros de distância, tentando aprender a não fazer nada. ô vida.
=)
saudade.

Raíssa Abreu disse...

Munique, linda, em linha reta minha vida já não vai há muito tempo... Agora, dar um foda-se pras pretensões realmente é um dom.
Nanda, sua cachorra, saudade de vc também.

nanda barreto disse...

au, au.
;)

Raíssa Abreu disse...

No seu caso, uau, uau.
o/!